Do Pároco

No mês de dezembro tudo converge para o dia do Nascimento de Jesus. É como se vivêssemos num grande presépio, com muitos caminhos que, de modo mais ou menos direto, acabam na gruta de Belém. Podemos viver cada dia com o desejo de percorrermos a distância que nos separa de Jesus Menino.

No entanto, a gruta de Belém não é humanamente atrativa: pobre, talvez não muito limpa e até com animais, desconfortável. O que nos puxa com força para lá é o Menino, a sua Mãe e S. José. O Menino vale tudo.

O mesmo raciocínio deveria vir à nossa mente quando nos deparamos com uma criança doente, com alguém que nasce com alguma limitação. A criança é sempre mais valiosa que os «problemas» que eventualmente traz consigo. Há crianças doentes, que exigem mais trabalho e cuidados? Sim, há. No fundo, quem não os necessita nalgum momento da sua vida? Para além das razões humanitárias, o Nascimento de Jesus também pode inspirar a nossa atitude para com as crianças que vão nascer ou nasceram com alguma deficiência.

Jesus é Deus. Fez-Se homem, o que, na prática, significa ter adotado uma natureza limitada: circunscrita a um tempo e a um lugar, tendo de trabalhar para viver, exposto ao cansaço e à dor, ficando à mercê dos cuidados de Maria e José. O facto de ser o Messias não poupou a Maria e a José da obrigação de O proteger. Tiveram de fugir para o Egito para escapar de Herodes. Portanto, padeceram trabalhos adicionais por causa do Menino.

Uma criança com alguma doença continua a ser uma criança. Com as suas limitações, às vezes bem graves, pode trazer e traz um extra de amor para este mundo. Não avaliemos o valor de uma pessoa pela sua perfeição medida pelos nossos standards. Se Deus tivesse feito o mesmo, não teria encarnado: a distância entre a sua natureza divina e humana é infinitamente maior que a que existe entre uma pessoa sã e uma pessoa com uma doença gravíssima.

Em maio deste ano, o Papa Francisco lembrou: «As dificuldades de ordem prática, humana e espiritual são inegáveis, mas precisamente por isso são urgentes e necessárias ações pastorais mais incisivas para apoiar aqueles que acolhem filhos doentes. Ou seja, é preciso criar espaços, lugares e “redes de amor” aos quais os casais possam dirigir-se, assim como dedicar tempo ao acompanhamento destas famílias».

O Nascimento de Jesus ilumina a nossa vida com múltiplos ensinamentos. Um deles é este: qualquer vida humana tem um enorme valor. As doenças não lhe retiram valor. Um modo de evitar que o Natal seja um evento meramente decorativo é transformar o nosso coração numa gruta de Belém, onde possa nascer e viver qualquer ser humano.

Pe. João Paulo Pimentel

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Fica a saber como são processados os dados dos comentários.